Quem é Jorge Sampaoli?

Para entender Jorge Sampaoli, basta pegar a declaração do atual melhor treinador dos clubes latinos, Marcelo Gallardo, sobre o novo comandante do Santos Futebol Clube.

“Quando eu treinei o Nacional, enfrentei Sampaoli na Sul-Americana de 2011, que ele ganhou. Nós jogamos duas partidas no comando do Nacional, mas o torneio chileno começa antes, então eles já haviam jogado sete partidas do torneio local e duas na Copa. Eu vi as nove partidas da Universidad de Chile e disse ‘puta merda, é contra esse time que vamos jogar?’. Foi insuportável. Não conseguimos sair de sua pressão para atacá-los de jeito nenhum”. Muñeco Gallardo disse isso há sete anos, quando era treinador do Nacional-URU, no início de sua carreira, que acabou marcando para sempre o atual treinador do River Plate, que recentemente conquistou sua segunda Libertadores da América.

Foto: Getty Images

Todavia, não é simples falar do homem que revolucionou o futebol sul-americano. Levar a Universidad de Chile ao topo foi um grande feito, assim como transformar a seleção chilena numa potência continental. Pode parecer simples, se você for rigoroso, mas pegar o trabalho de Marcelo Bielsa e melhorá-lo – e depois receber o reconhecimento do “deus dos treinadores” – já serve de introdução.

No entanto, mesmo com títulos importantes no currículo, o trabalho de Jorge Sampaoli se resume mais em filosofia do que números (apesar de bons). O argentino é uma das referências do futebol ofensivo, mas isso não o torna em um apegado a esquemas táticos e jogadores famosos.

Todas as equipes do treinador tem algo em comum: a pressão insuportável. Como uma cobra, todos os clubes comandados por Sampaoli buscam asfixiar seus rivais, independente da força, ser mandante ou estar com a vantagem no placar. É pressão durante os 95 minutos da partida. 95? Pois é, nenhum jogo acaba com 90 minutos, sempre existem os acréscimos. Ah, essa frase é do futuro treinador santista.

Partindo desse preceito como base filosófica, Sampaoli define o plano de jogo, que varia de acordo com o adversário, seus jogadores disponíveis e qual setor do campo ele pode explorar. É nesse ponto que aparece uma faceta importante e que os brasileiros vão precisar se acostumar: a imprevisibilidade. Alguns analistas mais conservadores podem achar que isso é invencionice do argentino, porém, o próprio já provou que isso ganha jogo.

“Através da pressão, do roubo [de bola], eu ataco. Com muita pressão eu surpreendo. Joguei em linha, com líbero ou stoppers (zagueiro-zagueiro) e fui modificando o desenho geométrico [da equipe], que não são determinantes. Dito isso, a pressão alta deve ser aplicada de forma conjunta e organizada a cada sete metros por jogador. E assim a bola vai aonde eu quero roubá-la. O princípio é esse, sem deixar de jogar e atacar com base na recuperação imediata”, diz Sampaoli em seu livro “No Escucho y Sigo”.

Explosivo e de personalidade forte, o novo treinador do Peixe, obviamente, não digere muito bem as derrotas, e tampouco os empates, porém, algo que ele não aceita é a passividade. Para Sampaoli, independente do adversário, suas equipes TÊM que atacar o rival, independente da situação.

Foi assim que a Universidad de Chile meteu 4×0 no Flamengo de Vanderlei Luxemburgo, em pleno Maracanã, em 2011. Na mesma edição da Sul-americana, a La U de Sampaoli venceu o Nacional-URU, no Grand Parque Central, por 2×0 após ter vencido a primeira partida por 1×0, no Chile. O Chile de Sampaoli eliminou a Espanha, na Copa do Mundo, em 2014, e quase fez o mesmo com o Brasil, ao perder nas cobranças de pênalti. Sempre com a marcação alta, pressionando o adversário para que ele fique desconfortável e assim forçar erros dos rivais.

Apesar de ter vencido a Copa América de 2015 nos pênaltis, o Chile criou inúmeras chances de matar o jogo contra a Argentina no tempo real. Sampaoli armou uma armadilha para seus conterrâneos ao bloquear completamente o meio-campo, onde notoriamente perderia o duelo se desse espaço.

A vitória contra a Argentina é o grande exemplo do quão Sampaoli pode ser imprevisível e difícil de ser lido. O próprio diz que gosta de seguir seus instintos, porém, como um discípulo de Bielsa, o argentino é um observador sagaz. Cada peça tem sua função em relação ao adversário. Cada jogador é explorado na posição que pode causar mais dano. Poucos treinadores são tão traiçoeiros quanto Sampaoli, que é obcecado pela filosofia de jogo.

A partir do momento que os jogadores compreendem a ideologia do treinador, os desenhos táticos das equipes começam a chamar a atenção pela flexibilidade, podendo mudar durante a partida conforme a necessidade.

Sampaoli já utilizou vários esquemas táticos nos últimos dez anos. O primeiro a dar certo foi o 4-2-3-1 nos tempos de La U. Depois, especialmente no período pré-seleção, o argentino migrou para o 3-4-3. Já na seleção chilena, foi um misto de 4-3-3 e 3-3-3-1. Conforme dito antes, todos esses desenhos são mutáveis e complemente dependentes do adversário. No Mundial de 2014, ele inovou com o 4-3-1-2 (para dar mais liberdade de criação para Charles Aranguíz) e, posteriormente, na Copa América de 2015, Sampaoli meteu o 3-4-1-2 (que visava dar mais liberdade para Valdívia, que brilhou no torneio).

Nas duas últimas passagens por Sevilla e Argentina, ficou claro que o treinador argentino quis solidificar alguns esquemas, apesar de mexer em muitas peças. No clube espanhol, Sampaoli optou pelo clássico 4-2-3-1. A variação ficava por conta dos meio-campistas (Nasri, N’Zonzi, Krannevitter e Vázquez eram os prediletos, pois são jogadores de qualidade técnica alta, porém, com tipos diferentes de jogo). Na seleção argentina, Sampaoli não abriu mão da linha de três na defesa, que contava com dois zagueiros e um lateral com experiência tática elevada (Tagliafico). Do meio pra frente, mesmo não tendo sucesso, ele procurou utilizar os jogadores de drible e que dão profundidade.

Uma exigência do treinador é sair jogando pela defesa, ou “salir por abajo”. Sem dar chutão e sem “quebrar” a bola no ataque com o goleiro, Sampaoli sempre dá preferência para jogadores técnicos e de qualidade no passe, justamente para não dar a bola para o adversário (e muito menos correr atrás dele). Por isso, muitas vezes, o argentino opta por escalar meio-campistas na linha de três defensores ou um lateral com consciência tática, que seja “passador” e, ao mesmo tempo, inteligente para cumprir com a parte defensiva.

Inicialmente, Sampaoli pode ter dificuldades para montar uma linha de três da maneira que ele está acostumado agora no Santos. O estilo arcaico de formação de jogadores no Brasil raramente desenvolve zagueiros rápidos e de qualidade técnica. O mesmo pode-se dizer dos laterais, que ou são ofensivos demais ou são físicos demais. No entanto, ele pode optar por escalar três zagueiros de ofício, especialmente porque o Peixe possui três bons nomes para o setor.

Utilizar três defensores seria um alento para o clube, pois dessa maneira Carlos Sánchez poderá atuar na função que ele mais gosta (meia-direita, ou ala-direito). Renovar o contrato de Dodô seria um acerto enorme, sobretudo porque ele era ala na Itália, enquanto defendeu as cores da Roma. Caso isso não aconteça, o mais “propício” seria utilizar ou Jean Mota ou Copete na função de ala esquerda. Talvez, sem muita obrigação defensiva, algum dos dois possa fazer um desempenho interessante. Entretanto, o ideal é conseguir manter o Dodô para que o 3-4-3 seja mais próximo do ideal.

Esse pode ser o esquema que mais agrade ao “Pelado” (apelido de Sampaoli, por ser careca), pois, segundo pessoas próximas à diretoria, o treinador ficou encantado com as opções jovens do Santos. No meio-campo há uma boa quantidade de jogadores novos e que podem dar o “salto” com Sampaoli. Levando em consideração o estilo do argentino, jogadores como Guilherme Nunes e Gabriel Calabres têm qualidade para sustentar o meio-campo devido à qualidade técnica no passe e ocupação de espaço. Nunes, inclusive, já até jogou de zagueiro na base (podendo entrar na linha de três), enquanto Calabres pode protagonizar qualquer função no meio-campo.

Quem pode perder espaço, ou até ser readequado, é o Alison. Tecnicamente muito limitado, o “cachorro louco” não tem o estilo do jogador que Sampaoli gosta. Pensando nisso, caso ele seja aproveitado, o volante poderia ser recuado para a linha de três, virando um defensor.

Uma das características das equipes de Sampaoli é a ausência do centroavante de área. El Pelado tem predileção por atacantes rápidos ou técnicos, que contribuam na criação de jogadas e que possam atrair a marcação adversária para outras posições. Bryan Ruíz, apesar de não ser um jogador tão móvel, é uma das referências técnicas da equipe. Cuca não soube (ou não quis) utilizá-lo direito, porém, com Sampaoli pode ser diferente.

Ruíz é uma das referências técnicas no elenco do Santos. Com boa estatura, boa finalização e visão de jogo muito apurada, ele abre um leque de possibilidades para o treinador argentino, que pode utilizá-lo no 3-4-3, 3-3-1-3 ou no 4-2-3-1.

No primeiro esquema, ele poderia ser o “falso 9”, onde teria liberdade para flutuar pela região central do gramado, criando chances e aparecendo de frente para o gol. Com isso, a qualidade técnica não só aumenta como também terá maior envolvimento dos pontas, pois essa é uma das filosofias de jogo do treinador. Já no 3-3-1-3, Bryan poderia desempenhar papel semelhante ao de Valdívia na Copa América de 2015, porque esse esquema foi desenvolvido por Sampaoli justamente para potencializar as qualidades do camisa 10 chileno. Tal qual Valdívia, Ruíz é um atleta de técnica apurada, de ótimo passe e boa finalização. Tendo um aporte de três meias mais rápidos atrás, o costarriquenho teria pouquíssimas obrigações defensivas, ficando encarregado apenas de orquestrar a equipe. O mesmo pode-se dizer de Vázquez no Sevilla.

No 3-3-1-3, o trabalho dos pontas seria ainda mais importante, porque ambos teriam que contribuir na fase defensiva-ofensiva com regularidade. Derlís González tem tudo para ser a “menina dos olhos” de Sampaoli, pois o paraguaio – além de intenso – é muito inteligente e não existe nada nesse mundo que o treinador argentino valorize mais em suas equipes do que um extremo inteligente. González já jogou como “referência” no ataque, justamente contra o Brasil pela seleção paraguaia. Em algumas oportunidades, muito com Tata Martino, ele foi o “falso 9”. Com liberdade para Ruíz flutuar entre o comando do ataque com a armação, abre-se um espaço para González e Rodrygo atacarem e pisarem na área para finalizar.

O “jogo posicional” é muito importante no futebol europeu, hoje. No Brasil, a parte tática ainda é levada como piada por muita gente leiga, porém, o sucesso de várias equipes depende disso. No clássico 4-2-3-1, o comprometimento tático seria vital para o sucesso da equipe, justamente pelo compromisso com a “pressão insuportável”.

Ruíz seria mantido na armação, intocável e com liberdade para pisar na grande área, enquanto Pituca (se ficar) e Sánchez comandariam as ações de trás. Esse detalhe é essencial, porque os “volantes” precisam armar e sustentar qualquer camisa 10 atualmente. A dupla, que já mostrou ser o que o Peixe tinha de bom com Cuca, tem totais condições de brilhar com Sampaoli.

Certamente o treinador argentino vai pedir reforços, apesar de ser expert na utilização de jogadores jovens. Porém, Sampaoli vai precisar de peças específicas e que tenham facilidade para entender o plano de jogo.

O sucesso de Jorge Sampaoli depende exclusivamente da harmonização do clube. O argentino vai precisar de autonomia para gerir a equipe, especialmente pelo estilo vistoso de futebol. Além disso, Jorge é muito temperamental e, em certos momentos, muito exigente. O presidente vai ter que focar na administração, sem dar pitaco, e o Renato fazendo a ponte entre o campo e a diretoria.

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